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ALTAR OU PALANQUE

Qual é a chamada da Igreja: Sacerdotal ou Política?    

A imagem representa a Igreja dividida entre sua vocação sacerdotal e a busca pelo poder político.
A imagem representa a Igreja dividida entre sua vocação sacerdotal e a busca pelo poder político.

Qual é o chamado da Igreja: sacerdotal ou político? O apóstolo Pedro responde a essa pergunta em sua primeira carta aos crentes judeus e gentios da diáspora, que viviam no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia.


“Vocês, porém, são geração eleita, reino de sacerdotes, nação santa, povo que pertence a Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” (1Pe 2:9)


Paulo afirma na Carta aos Romanos que o chamado e a eleição de Israel são irrevogáveis, confirmando o que Deus declarou inúmeras vezes: o sacerdócio de Israel é perpétuo (Rm 11:28-29; Êx 19:5-6). Entretanto, esse sacerdócio não seria exclusivo de Israel; as nações também participariam dessa graça e dessa promessa como remanescentes da fé (Rm 11:17-24; Ef 2:11-13). Mas o que é um remanescente? É aquele que crê e permanece na fé no Deus de Abraão, por meio do nome de Jesus (Rm 4:11-16).


Segundo Ludwig Goulart, em Israel é o Espelho da Igreja, a história de Israel também serve de espelho para a Igreja: sua obediência aponta para as bênçãos, enquanto sua desobediência revela as consequências do afastamento de Deus. Assim, os gentios que creem no Messias Yeshua não estão fora dessa história, mas são inseridos, pela fé, na promessa feita a Abraão (Gl 3:7-9, 26-29).


A Igreja participa da eleição de Deus por meio da promessa originalmente feita a Israel. Em 1 Pedro 2, essa vocação se estende às nações, que são chamadas de povo eleito, sacerdócio real e povo santo, recebendo a missão de anunciar as grandezas de Deus e proclamar às nações a luz da salvação do Messias de Israel, Yeshua (1Pe 2:9; Mt 4:16; At 13:47).


O verdadeiro chamado da Igreja é exercer um sacerdócio universal, não restrito ao modelo levítico de Israel. Porém assim como o sacerdócio aarônico intercedia por si, por sua casa e por toda a congregação, oferecendo sacrifícios em favor do povo (Lv 16:6,15-17; Hb 5:1-3), a Igreja é chamada a interceder pelas vidas. Interceder é entregar-se pelo outro, seguindo o exemplo de Yeshua, para que aqueles que ainda não conhecem a Deus sejam libertos do pecado, reconciliados com o Pai e conduzidos ao Deus de Israel por meio do Messias (Rm 5:10; 2Co 5:18-20; 1Tm 2:5-6).


O chamado da Igreja é exercer seu sacerdócio por meio da intercessão, cuidando tanto dos que pertencem à fé quanto daqueles que ainda não conhecem o Senhor (Gl 6:10; 1Tm 2:1-4). Essa responsabilidade inclui, de maneira especial, orar por aqueles que ocupam posições de autoridade, seguindo a orientação de Paulo ao jovem Timóteo:


“Antes de tudo, peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.” (1Tm 2:1-2)


As Escrituras não registram o Senhor nem os apóstolos atribuindo à Igreja um chamado político. A política pertence à esfera civil, envolvendo decisões coletivas, administração do Estado, elaboração de leis e gestão dos recursos públicos. A missão da Igreja, porém, está voltada aos interesses do Reino de Deus (Mt 6:33; Cl 3:1-2). Ela não foi chamada para criar leis, mas para viver e ensinar os dez mandamentos de Deus, dados a Israel no Sinai (Êx 19:1-6; 20:1-17) e reafirmados por Yeshua como princípios universais de amor a Deus e ao próximo (Mt 5:17-20; 22:37-40; Jo 13:34).


A intercessão da Igreja prepara os corações para receberem a semente da Palavra, tornando a “terra” fértil para que a mensagem de Jesus produza frutos (Mt 13:3-9,18-23). Como a vontade de Deus é que todos sejam salvos, inclusive aqueles que exercem autoridade (1Tm 2:3-4), a Igreja deve interceder por eles. Isso, porém, não significa ocupar ou assumir uma função política junto aos governos deste mundo, mas cumprir sua missão espiritual de conduzir vidas à verdade e à salvação.


Jesus deixou claro que o Seu Reino não pertence à lógica dos governos deste mundo (Jo 18:36). Os governos humanos, por mais bem-intencionados que sejam seus líderes, permanecem sujeitos à corrupção e às limitações da natureza humana (Jr 17:9; Rm 3:23). O Reino de Deus, ao contrário, é incorruptível e perfeito (1Co 15:50; Ap 21:27). Seu governo não se estabelece pela força das estruturas humanas, mas se manifesta no coração daqueles que se submetem à vontade do Pai (Lc 17:20-21; Rm 14:17).


Após a multiplicação dos pães, a multidão tentou proclamar Jesus como rei de Israel, mas Ele se retirou imediatamente (Jo 6:14-15). Em vez de buscar reconhecimento, poder ou posição, Yeshua afastou-se para orar (Mt 14:23). Seu exemplo revela que quem é guiado pelo Espírito de Deus deve discernir e afastar-se de ambientes dominados pela idolatria, pela vaidade e pela busca de poder humano.


Precisamos entender que Deus não tem partido A ou B. A própria palavra “partido” remete à divisão, pois cada grupo defende sua própria visão. E onde há divisão, não há prosperidade (1Co 1:10-13; 3:3-4). Logo, não há Reino.


Deus intervém, sim, na estrutura governamental e política, pois inclina o coração dos governantes conforme a Sua vontade (Pv 21:1). Isso, porém, não significa que a Igreja tenha sido chamada para escolher líderes, governadores, presidentes ou outras autoridades civis. É Deus quem estabelece e remove reis (Dn 2:20-21), podendo usar os governantes para abençoar o Seu povo, como fez com Ciro e Artaxerxes (Is 44:28–45:1; Ed 7:11-27).


Como cidadãos sujeitos às autoridades humanas, devemos respeitar e nos submeter ao que não contradiz as Escrituras (Rm 13:1-7; At 5:29). Também devemos exercer nosso direito de votar, lembrando que o voto é secreto. Afinal, os homens podem fazer seus planos, mas é o Senhor quem estabelece a palavra final (Pv 16:1,9).


Mariana Galvão, em Ester: a preservação do povo eleito — ensaios para os tempos do fim, mostra que a Bíblia apresenta personagens como José, Daniel e Ester atuando em estruturas de governo. Contudo, nenhum deles chegou ao poder por candidatura ou campanha política religiosa. Todos estavam inseridos em contextos de exílio ou dispersão, servindo em governos estrangeiros e, muitas vezes, sob sistemas políticos que não haviam escolhido (Gn 41:39-41; Dn 2:46-49; Et 2:17-18).


José foi elevado por sua capacidade administrativa durante uma crise (Gn 41:38-44), enquanto Daniel serviu a diferentes reis durante o exílio babilônico (Dn 1:17-21; 6:1-3). Ester tornou-se rainha e usou sua posição para interceder pela preservação de seu povo (Et 4:13-16; 7:3-4). Seu exemplo está diretamente ligado ao combate ao antissemitismo, pois o contexto central do livro é a preservação do povo judeu diante de uma tentativa de extermínio (Et 3:8-13; 8:3-8).


Esses exemplos mostram que Deus pode colocar Seus servos em posições de influência e autoridade (Gn 41:41; Dn 2:48; Et 4:14). Contudo, eles não estabelecem um modelo para que líderes espirituais usem sua autoridade sacerdotal para conduzir politicamente a consciência dos fiéis.


Há uma diferença fundamental entre influência e controle. A Igreja influencia a sociedade quando permanece fiel à verdade, à justiça, à misericórdia e ao Evangelho (Mt 5:13-16; Mq 6:8). Porém, ultrapassa sua missão quando substitui a consciência individual do cidadão por uma orientação política obrigatória (Rm 14:4-5,12).


O líder espiritual pode ensinar princípios bíblicos que orientem os cristãos na reflexão sobre a vida pública (2Tm 3:16-17). Contudo, a escolha eleitoral pertence à consciência e à responsabilidade de cada cidadão. Nenhum pastor, padre, bispo ou líder religioso deve confundir autoridade espiritual com o poder de determinar o voto dos fiéis (Rm 14:10-12; 1Pe 5:2-3).


Jesus advertiu Seus discípulos sobre diferentes tipos de fermento: o dos fariseus, o dos saduceus e o de Herodes (Mt 16:6; Mc 8:15). Por isso, disse:


“Estejam atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus.” (Mt 16:6)


“Prestem atenção! — advertiu Jesus. — Tenham cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes.” (Mc 8:15)


O fermento dos fariseus representa uma religiosidade que altera a identidade espiritual do povo (Mt 16:11-12). Embora ensinassem a Torá, os fariseus não a vivenciavam e, por isso, Jesus os chamou de hipócritas (Mt 23:1-7,23-28). Naquele período, Israel vivia uma profunda apostasia, influenciado pelas práticas das nações e pelo afastamento da Torá (Mc 7:6-13), enquanto seus líderes religiosos sofriam forte influência da cultura grega. Jesus confrontava essa hipocrisia, marcada por máscaras e aparência, em lugar da essência (Mt 23:27-28).


O fermento dos saduceus aponta para uma influência marcada pela incredulidade. Eles exerciam grande influência na liderança espiritual de Israel (At 5:17), aceitavam principalmente o Pentateuco como autoridade, rejeitavam os profetas e negavam realidades sobrenaturais, como a ressurreição e a atuação dos anjos (Mt 22:23; At 23:8). Jesus, portanto, advertia contra uma compreensão das Escrituras reduzida ao intelectual e racional, sem fé no Deus que age sobrenaturalmente (Mt 22:29-32).


Herodes era judeu e conhecia a Torá, mas não vivia segundo seus mandamentos. Aliado ao Império Romano, representava uma liderança comprometida com o poder político de Roma (Mc 6:17-20; Lc 13:31-32). Nesse contexto, o fermento de Herodes apontava para a aliança entre o poder político romano e setores da liderança religiosa de Israel.


O Sinédrio, liderado pelos sacerdotes Anás e Caifás, estava inserido nesse ambiente político, justamente no tipo de influência que Jesus não deseja que Sua Igreja reproduza (Jo 11:47-53; 18:13-14,28-32). Para preservar suas posições e seu poder, determinadas lideranças religiosas se submetiam a Roma e utilizavam sua autoridade para manipular o povo de Israel. Isso nos leva a perguntar: isso te lembra alguma coisa hoje?


Esse foi um dos grandes confrontos de Jesus durante Seu ministério: uma liderança religiosa que, em vez de permanecer fiel à sua missão, envolvia-se com os poderes deste mundo e com as práticas das nações (Mt 23:1-7,13-28). O fermento de Herodes, portanto, representa o perigo de misturar autoridade espiritual com poder político, permitindo que a Igreja seja conduzida pelos interesses e mecanismos dos governos deste mundo.


Você sabe o que acontece com a Igreja quando ela deixa seu chamado sacerdotal e intercessório para se envolver com a política? Ela corre o risco de se tornar uma instituição de poder, como ocorreu com a Igreja Católica Romana, que assumiu também uma estrutura política e estatal, com o papa exercendo autoridade religiosa e sendo chefe de Estado do Vaticano.


Será que essa estrutura, unindo poder econômico, religioso e político, não pode ser vista como um arquétipo do Anticristo? Essa é uma reflexão apresentada à luz de Apocalipse 13:1-8,11-18 e 17:1-18. Quando a Igreja começou a se envolver com Roma, sua relação com o poder político transformou profundamente sua estrutura. Diante disso, fica a pergunta: é isso que queremos ou, melhor, é isso que Deus quer para Sua Igreja?


O sacerdote não podia se contaminar para exercer o serviço no altar (Lv 21:1-4; Ez 44:23), e aqueles que usurpavam funções que Deus havia confiado a outros enfrentavam graves consequências (Nm 16:1-35; 2Cr 26:16-21). Esse princípio também pode ser percebido na Igreja: muitos jovens, avivalistas e homens cheios do Espírito Santo começaram a morrer espiritualmente quando trocaram o altar pelo palanque.


Um exemplo é o rei Uzias, que começou bem, buscando ao Senhor, mas acabou usurpando uma função sacerdotal que pertencia aos filhos de Arão e, por isso, foi ferido com lepra (2Cr 26:4-5,16-21). Da mesma forma, assim como o rei não deveria assumir a função do sacerdote, o sacerdote também não deve assumir aquilo que pertence ao governo humano (Rm 13:1-7).


Quando deixamos de usar as ferramentas do Reino de Deus confiadas ao nosso sacerdócio espiritual, o fogo da presença deixa de se manifestar, e corremos o risco de nos tornar apenas uma estrutura de governo humano, sem o poder do Espírito Santo (2Tm 3:5). Em vez de anunciar a mensagem de Deus, passamos a anunciar uma mensagem política; assim, aqueles que deveriam ouvir uma palavra de salvação, libertação e cura acabam ouvindo apenas a voz de um sistema humano (At 4:12; Rm 1:16).


Voltemos ao nosso chamado: interceder por todos aqueles que ainda não conhecem o Deus Todo-Poderoso (1Tm 2:1-4). Proclamemos Yeshua e oremos por aqueles que estão em posição de autoridade, para que a verdade do Evangelho alcance seus corações (Mt 28:19-20; 1Tm 2:1-2). Assim poderemos viver em paz, pois a verdadeira paz começa quando o homem conhece verdadeiramente o nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 14:27; Rm 5:1).



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