O LOBO E O FALSO PROFETA
- Douglas Galvao
- há 11 horas
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“A impiedade por trás da piedade”

Um jovem médico cristão, aos 24 anos e recém-formado, decidiu tornar-se missionário em uma região remota da África. Enviado a uma tribo que nunca havia ouvido falar de Jesus Cristo e tinha pouco contato com homens brancos, foi recebido pela aldeia. Todos os dias, as pessoas ouviam sua mensagem, enquanto ele cuidava dos enfermos e medicava os habitantes. Assim passaram-se quase 25 anos.
Apesar de toda a receptividade, ele nunca viu uma única pessoa daquela tribo confessar a fé em Cristo. A decepção foi profunda. Havia dedicado sua juventude à missão, não se casara nem formara uma família, abrindo mão de muitas coisas porque desejava o ministério acima de tudo. Com o tempo, porém, a frustração transformou-se em revolta. Ele não conseguia aceitar que, depois de tantos anos, não tivesse visto os resultados que esperava.
A amargura deu lugar ao ódio. Tomado por uma ira descontrolada, incendiou as cabanas e casas da aldeia. Homens, mulheres e crianças morreram, muitos deles justamente aqueles que havia cuidado durante quase 25 anos. Depois, retornou à Europa e continuou pregando seus sermões. A pergunta, então, é inevitável: se você fosse líder de um ministério, colocaria novamente esse homem em um púlpito para falar às ovelhas que o Senhor confiou a você?
Talvez a resposta pareça óbvia. Entretanto, a questão nos conduz a outro personagem histórico. Martinho Lutero, um dos principais nomes da Reforma Protestante, começou sua trajetória defendendo aquilo que entendia ser a verdade do Evangelho. Contudo, anos depois, desenvolveu profunda hostilidade contra os judeus. Em 1543, publicou Sobre os Judeus e Suas Mentiras, obra na qual descreveu os judeus em termos extremamente ofensivos e recomendou a destruição de sinagogas, a queima de escritos judaicos, o confisco de propriedades e outras medidas de perseguição.
A questão, portanto, não é apenas alguém cometer um erro ou defender uma interpretação teológica diferente. O problema surge quando frustração, rejeição e hostilidade ganham linguagem religiosa e passam a ser apresentadas como vontade de Deus. É nesse ponto que precisamos falar sobre uma falsa piedade.
Paulo advertiu Timóteo sobre homens que seriam “mais amantes dos prazeres do que amantes de Deus; embora tenham aparência de piedade, negam o seu poder” (2Tm 3:4-5). A palavra grega σέβομαι (sebomai) significa reverenciar, respeitar profundamente, prestar culto ou adorar. A advertência é contra uma devoção aparente que não possui o poder transformador de Deus.
Essa falsa piedade também pode produzir uma forma de adoração diferente do modelo revelado nas Escrituras. Paulo afirma que a Israel pertencem “a adoção, a glória, as alianças, a promulgação da Lei, o culto e as promessas” (Rm 9:4-5). Assim, afastar-se de Israel por meio de ensinos de ódio contra o povo judeu é também romper com o contexto da fé no Deus dos patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó.
Por isso, o falso profeta nem sempre é aquele que deixa de falar sobre Jesus. Ele pode falar muito sobre Jesus e, ao mesmo tempo, negar o seu poder. O próprio Messias advertiu: “Tenham cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores” (Mt 7:15). Alguém pode pregar sobre Jesus e, ainda assim, apresentar uma mensagem contrária ao próprio Jesus.
O antissemitismo, portanto, não aparece somente em ataques, sinagogas queimadas, palavras racistas ou agressões físicas contra judeus. Existe uma manifestação ainda mais perigosa: aquela que possui aparência de piedade e promove a rejeição de Israel por meio de uma falsa doutrina nos púlpitos. Paulo ordena: “Afaste-se destes” (2Tm 3:5).
É nesse contexto que o IDI (Igrejas em Defesa de Israel) entende sua missão de combater o antissemitismo dentro do corpo da Igreja. Não se trata de afirmar que a Igreja de Jesus seja antissemita, mas de reconhecer que determinados ensinos presentes em instituições religiosas podem formar cristãos contrários a Israel. Palavras como Shabat, hebraico, judeu, Torá e Israel ainda provocam incômodo em muitos ambientes cristãos. Por isso, precisamos permitir que a verdade seja conhecida, pois “a verdade vos libertará” (Jo 8:32).
A história mostra que essa questão não ficou apenas no campo das palavras. Os escritos antijudaicos de Lutero foram posteriormente utilizados pelo regime nazista. Isso não significa que o nazismo simplesmente copiou Lutero: o antissemitismo nazista possuía uma ideologia racial própria. Entretanto, os nazistas recuperaram seus escritos para apresentar a perseguição aos judeus como parte de uma antiga tradição alemã.
Entre as correspondências, Lutero defendia a queima de sinagogas, e os nazistas incendiaram centenas delas na Noite dos Cristais, em 1938. Lutero defendia a destruição de escritos judaicos, enquanto os nazistas confiscaram e queimaram livros judaicos. Lutero recomendava o confisco de dinheiro e propriedades dos judeus, e os nazistas fizeram isso por meio da chamada “arianização”. Também defendia o trabalho braçal imposto aos judeus, enquanto os nazistas os utilizaram como mão de obra forçada em campos de concentração e extermínio. Além disso, suas palavras foram usadas para sustentar uma justificativa moral para a violência e assassinato contra os judeus.
O governo nazista explorou essa herança em sua propaganda. O tratado de Lutero foi reimpresso e distribuído durante o regime; seus textos apareceram em comícios do Partido Nazista em Nuremberg; pastores protestantes alinhados ao nazismo utilizaram os púlpitos para apresentar Hitler como continuidade da tradição de Lutero; e Hitler o elogiou em Mein Kampf, ajudando a transformá-lo em símbolo nacionalista. Assim, escritos produzidos no século XVI foram recuperados séculos depois como instrumento de propaganda e legitimação da perseguição aos judeus.
Diante disso, precisamos voltar à questão espiritual. O afastamento entre judeus e cristãos e o distanciamento da Igreja em relação a Israel exigem arrependimento. O retorno ao Cristo, o Messias de Israel, nos conduz novamente à mensagem de amor que saiu de Sião para alcançar as nações. Somos chamados a reconhecer as sementes de preconceito e ódio que podem ter sido plantadas em nós e permitir que o Senhor examine o nosso coração.
Por isso, a resposta não deve ser apenas apontar o antissemitismo do lado de fora, mas pedir que Deus retire de nós toda rejeição ao povo de Israel. Como declara a promessa: “Eu abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” (Gn 12:3). O caminho é o arrependimento, o amor e a disposição de abençoar o povo que Deus abençoou.
Oremos assim:
Pai, em nome do seu Filho amado, Jesus Cristo, o Messias de Israel, o meu Salvador, pedimos perdão por todo sentimento, ódio, ira e rejeição ao povo que Te chama pelo nome, Israel. Arranca de mim todo sentimento e espírito anti-Israel, antissemita, anticristo, antimessias, anti-Yeshua.
Dá-me amor pelo povo de Israel e mostra-me como eu posso abençoar o povo que o Senhor abençoou, pois o Senhor fez a promessa a eles: “Eu abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.” (Gn 12:3)
Que as enfermidades, doenças, dores no meu corpo, trancas e algemas que estão em mim pelo preconceito contra o povo de Israel sejam quebradas no nome de Jesus. Diga agora: “Eu oro e abençoo os filhos de Israel.” Amém.
Obrigado por semear nesta missão!
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